Quando eu quero ver o meu futuro

homen de costas na cozinha cozinhando - desenho em aquarela digital

Nick passou pela cozinha e viu que PAPAI estava lá, fazendo algo gostoso para o jantar como de costume. De repente, passou uma ideia curiosa pela mente dela e ela entrou de mansinho, deu um abraço em PAPAI e foi logo dizendo:

— PAPAI, eu quero ver o que vai acontecer daqui a uns anos. O Senhor pode me mostrar?

PAPAI se virou tranquilamente com um sorriso brincalhão.

— Minha pequena, se eu te contar, não terá mais nenhuma surpresa!

— Mas eu não quero mais surpresas, PAPAI! Eu realmente quero saber o que me aguarda para eu não ter mais essa ansiedade toda...

— E se o efeito for justamente o contrário?

— Como?

— Sim, você ficar mais ansiosa querendo viver tudo o que está por vir?

— Huuum, então isso quer dizer que só terão coisas boas, né? Porque coisas ruins eu não ia ficar ansiosa pra viver... me conta, PAPAI! — O olhar de Nick implorava.

PAPAI gargalhou carinhosamente.

— É claro que terão coisas boas, minha pequena, mas isso não exclui as ruins... elas fazem parte do pacote completo.

— Posso pegar só uma parte desse pacote, então? — Nick riu de nervoso, a ansiedade já batia forte.

PAPAI voltou sua atenção para a panela à sua frente. O cheiro do refogado invadiu a cozinha, trazendo uma sensação imediata de conforto e familiaridade.

— Veja bem, Nick — ele disse, pegando um punhado de sal e algumas ervas rústicas. — Você gosta do prato que estou preparando, não é?

— Eu amo! É o meu favorito.

— Pois é. Mas se eu te der apenas uma colher de sal puro para comer, ou se eu te fizer morder essa cebola crua, você vai odiar. O sal sozinho é forte demais. A cebola crua faz os olhos chorarem. Mas, sem eles, a comida fica completamente sem graça.

Ele mexeu a panela, deixando o som do refogado preencher o silêncio por um breve instante, antes de continuar:

— As partes difíceis do seu futuro são como esses ingredientes mais amargos ou ardidos. Isoladas, elas parecem ruins, doem e nos fazem questionar o porquê de estarem ali. Mas, na receita final da sua história, são elas que vão dar o sabor, a resiliência e a profundidade de quem você vai se tornar. As lágrimas de hoje são o tempero da sua maturidade de amanhã.

Nick encostou-se no balcão, observando o vapor subir da panela. A metáfora fez sentido, mas o coração, teimoso que só ele, ainda estava um pouco agitado com a incerteza de tudo.

— Mas e se a receita desandar? E se o gosto ruim demorar a passar?

PAPAI largou a colher de pau, secou as mãos no avental e olhou profundamente nos olhos de Nick. Toda a agitação da garota pareceu se acalmar instantaneamente só de encontrar aquele olhar firme e seguro.

— É por isso que eu sou o Chef dessa cozinha, minha pequena. Eu nunca coloco um fardo maior do que os seus ombros podem carregar. E o mais importante: eu estarei degustando a vida com você, passo a passo. Nos dias em que o amargo for forte demais, eu serei a água fresca para limpar o seu paladar. Nos dias em que tudo for doce, eu vou ser o primeiro a sorrir e celebrar ao seu lado. Você nunca provará nada sozinha.

A ansiedade que apertava o peito de Nick começou a ceder espaço para uma paz silenciosa e aquecedora. Ela não sabia o que viria no próximo ano, nem na próxima década. Mas perceber que não precisava enfrentar os ingredientes difíceis sozinha mudava tudo. O controle não era dela, e estava tudo bem.

— Tá bom, PAPAI... — Nick suspirou, abrindo um sorriso mais leve e genuíno. — Pode guardar as suas surpresas. Mas promete que o jantar sai logo? Eu tô com muita fome do agora.

PAPAI deu mais uma de suas risadas acolhedoras, bagunçou os cabelos dela e voltou para o fogão.

— O agora já está quase pronto, Nick. Sente-se à mesa e aproveite o momento. O amanhã, a gente tempera quando ele chegar.

É tentador poder dar um pulinho no futuro para ver como serão as coisas, ainda mais para um ansioso! Mas será que isso ajudaria a sua ansiedade? Ou te deixaria pior? Ou faria você tentar mudar as coisas ruins que fazem parte do processo, apenas para que ficassem só coisas boas? Será que seria possível? Eu não tenho essas respostas, mas o que eu tenho é a certeza que PAPAI nunca nos deixará sozinhos e que a vontade Dele é boa, perfeita e agradável. Que tal descansar e confiar? 

Comentários