O silêncio que incomoda
Nick entrou na cozinha com passos lentos. Era tarde da noite, e a casa estava em silêncio — aquele silêncio que parece alto demais.
— PAPAI? — ela chamou baixinho.
Nenhuma resposta. Só o som do tique-taque do relógio.
Ela franziu a testa. Nos últimos dias, as coisas pareciam assim mesmo: silêncio nas orações, silêncio nas decisões, silêncio até nas emoções.
— Será que Ele não me ouve? — murmurou, puxando uma cadeira e se sentando, meio cansada, meio frustrada.
Foi então que ela notou algo: um cheiro no ar. Quente, envolvente. Algo estava sendo preparado.
Ela se levantou devagar e abriu o forno. Estava vazio.
— Ué? — sussurrou.
Foi nesse instante que PAPAI apareceu, sorrindo, com um avental amarrado e uma tigela nas mãos.
— Tá com fome, minha pequena?
Quando parece que nada está acontecendo
Nick cruzou os braços, fingindo estar mais brava do que realmente estava.
— Eu te chamei. Três vezes. O Senhor não respondeu.
PAPAI colocou a tigela na bancada e começou a misturar os ingredientes com calma.
— Eu ouvi. Só estava concentrado. Algumas receitas exigem silêncio.
Ela franziu o cenho, confusa.
— E o cheiro? Eu jurava que tinha algo assando no forno…
Ele riu de leve.
— Às vezes, o cheiro do que vai acontecer vem antes da coisa pronta. É o céu sussurrando: “Espere mais um pouco.”
Nick se sentou novamente. Observava os movimentos dEle: sem pressa, sem erro, como quem já conhece o final da receita mesmo antes do primeiro passo.
— Então… o Senhor estava me ouvindo o tempo todo?
— O tempo todo, minha criança. Mas também estava preparando algo. E algumas coisas só crescem no silêncio.
A fé que cozinha devagar
Enquanto PAPAI colocava a massa numa forma, Nick ficou pensando.
— É por isso que às vezes eu não sinto nada? Porque tem algo sendo preparado, mesmo que eu não veja?
PAPAI assentiu, colocando a forma no forno.
— Você já reparou como o bolo cresce sem barulho? Não faz escândalo. Só espera o tempo certo. E, quando está pronto, enche o ambiente com um cheiro impossível de ignorar.
Nick sorriu. Aquilo fazia mais sentido do que qualquer explicação teológica que já tinha ouvido.
— Então eu só preciso esperar… e confiar.
— Isso. Enquanto Eu mexo os ingredientes do seu futuro, você descansa. Porque nada do que Eu faço é à toa. E nenhuma receita minha dá errado.
Ela se aproximou, deitou a cabeça no ombro dEle e sussurrou:
— Mesmo quando parece que não tem nada acontecendo… o Senhor está cozinhando.
— E o melhor está por vir, minha pequena! — Ele respondeu com um beijo na testa.

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