PAPAI estava aguando as plantas na varanda. O sol da tarde filtrava-se pelas folhas, criando padrões de luz no chão de madeira. Era uma cena de paz, um contraste gritante com a tempestade que se aproximava.
Nick apareceu e se sentou no puf ao lado, seu corpo tenso, carregando o peso de um mundo que parecia ter desabado. Seus olhos estavam vermelhos e o rosto profundamente perturbado, marcado por trilhas de lágrimas que ela nem se dava ao trabalho de secar.
PAPAI guardou o regador calmamente, limpou as mãos no avental e se sentou ao lado dela. Ele não teve pressa. Delicadamente, segurou a mão trêmula de Nick e ficou ali. Apenas ficou. A brisa suave balançava as samambaias, mas o silêncio entre os dois era ensurdecedor.
— PAPAI... o Senhor está vendo o que está acontecendo? — A pergunta de Nick saiu entre soluços, um grito sufocado que vinha do fundo da alma.
PAPAI não respondeu imediatamente. Ele olhou para o horizonte, depois para ela, com um olhar que parecia ler cada capítulo de sua dor.
— PAPAI, isso é muito injusto! — Nick continuou, a voz ganhando força pela indignação. — O Senhor pode fazer alguma coisa, eu sei disso. Eu sei que o Senhor tem todo o poder. Por que o Senhor não faz? Por que permite que isso continue?
PAPAI permaneceu em silêncio. Sua mão continuava segurando a dela, firme, quente, presente. Mas a falta de palavras feriu Nick mais do que qualquer repreensão.
— PAPAI, o Senhor não está me ouvindo? — Nick gritou, puxando a mão. Ela estava com um misto de raiva, tristeza e decepção.
Foi então que ela olhou para o rosto dEle. E foi surpreendida.
Ele chorava.
Grossas lágrimas escorriam pelo rosto de PAPAI, molhando sua barba. Não era um choro contido; era um choro de quem sentia uma dor física.
Nick não entendeu o que estava acontecendo; seu rosto ficou completamente assustado ao ver aquela cena. O choque paralisou sua raiva. Como PAPAI estava chorando? O Criador de tudo, aquele que sustenta o universo, estava ali, desmanchando-se em lágrimas? Isso realmente era possível? E por que Ele estava ali mudo, se tinha o poder de resolver tudo com um estalar de dedos?
Ela não sabia o que fazer. Ela queria respostas, queria justiça, queria ação. Porém, como deveria se portar vendo a própria divindade chorar ao seu lado? A vulnerabilidade dEle a desarmou.
PAPAI, sabendo exatamente o que se passava na mente confusa de Nick, enxugou as lágrimas com as costas das mãos e a puxou para um abraço. Não foi um abraço rápido; foi um abraço que juntou os pedaços quebrados.
— Ah, minha pequena... — A voz dEle saiu embargada, profunda como um trovão distante, mas suave como a brisa. — Tem muita coisa que você não sabe e Eu não posso te dizer agora. A sua visão é limitada e só alcança a dor de agora, mas a Minha visão é eterna e Eu vejo a beleza que vai nascer desse caos
Ele se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela.
— Minhas lágrimas são porque Eu realmente entendo o seu sentimento de injustiça. E ele é legítimo. Não pense que Eu sou indiferente à dor. Eu a sinto. Eu sinto cada golpe, cada palavra dura, cada perda.
PAPAI suspirou, e parecia que todo o peso da humanidade estava naquele suspiro.
— O que posso te dizer neste momento é que Eu vejo tudo. Eu vejo você, Eu ouço você. O meu silêncio não é ausência, Nick. É uma companhia na dor que palavras não conseguem curar. Nem sempre Eu posso te dar ou falar o que você quer agora, porque isso mudaria processos que precisam acontecer. Mas isso, minha filha, jamais significa que Eu não me importe com o que está acontecendo. Eu estou aqui. E nós vamos passar por isso juntos.
Muitas vezes, chegamos diante de Deus com nossa lista de "porquês" e nossa indignação diante das injustiças da vida. E, muitas vezes, o que encontramos é o silêncio.
Mas essa história nos lembra de uma verdade teológica profunda e consoladora: Deus não é imune ao nosso sofrimento. Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro, mesmo sabendo que o ressuscitaria minutos depois. Ele chorou porque a dor daquelas irmãs era real.
Se você está passando por um momento onde a injustiça parece prevalecer e o céu parece de bronze, lembre-se:
O Silêncio não é abandono: Às vezes, Deus se cala para nos abraçar, porque nenhuma explicação racional aliviaria a dor do momento.
Seus sentimentos são legítimos: Deus não repreendeu Nick por estar brava. Ele validou a dor dela.
Há um quadro maior: Nós vemos o momento; PAPAI vê a eternidade.
Que hoje você possa sentir, não a explicação lógica para os seus problemas, mas o abraço dAquele que chora com você e promete que, no fim, enxugará dos olhos toda lágrima.

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