PAPAI estava sentado na varanda, olhando para o horizonte, quieto e aparentemente pensativo.
Nick olhou curiosa para aquela cena; não era comum encontrá-lo assim. O sol começava a se despedir, pintando o céu com tons de laranja e violeta, mas o olhar de PAPAI parecia enxergar muito além das nuvens.
Ela se sentou em silêncio ao seu lado e esperou até que Ele a notasse. Sentia que aquele silêncio não era vazio, mas carregado de algo que ela ainda não conseguia decifrar. Não se passou muito tempo, PAPAI olhou para Nick e sorriu — aquele sorriso que sempre parecia arrumar as coisas dentro dela.
— Oi, minha pequena! O que me conta?
— Oi PAPAI! Na verdade, eu que queria saber o que o Senhor me conta.
Os dois riram. Era um riso leve, mas PAPAI logo suspirou, voltando os olhos para a imensidão lá fora.
— Sabe, minha pequena, quando Eu criei a humanidade, Eu tinha tantos planos... Eu acreditei que dando a ela liberdade de escolha, ela iria sempre escolher o bem...
— Ah PAPAI... é tanta maldade que nem dá pra acreditar. Nem sei como o Senhor se sente vendo tudo o que acontece...
PAPAI apenas acenou com a cabeça com uma expressão que Nick não via com frequência: "decepção". Nick ficou curiosa, mas ao mesmo tempo com receio de perguntar. No entanto, PAPAI já sabia o que ela queria saber.
— Não, Nick, não me arrependo de dar a vocês liberdade de escolha. Se Eu não fizesse isso, que tipo de Deus Eu seria?
Nick franziu a testa, tentando processar.
— Mas PAPAI, se o Senhor soubesse que usaríamos a liberdade para machucar uns aos outros, não teria sido mais seguro nos criar como... bem, como robôs programados para o bem?
Ele soltou uma risada curta, mas cheia de ternura.
— Um robô pode executar uma tarefa perfeitamente, Nick, mas ele nunca poderá amar. O amor não pode ser forçado, nem programado. Ele só existe onde há a possibilidade de dizer "não". Eu nunca quis servos obedientes por falta de opção; Eu sempre quis filhos que escolhessem estar à mesa Comigo.
O silêncio voltou a reinar na varanda, mas agora ele pesava menos. Nick percebeu que a decepção de PAPAI não era um sinal de fracasso do Plano, mas o lamento de um pai que vê o filho escolher o caminho mais difícil e doloroso, mesmo tendo o mapa do tesouro nas mãos.
Nick encostou a cabeça no ombro de PAPAI. Ela entendeu que, embora Ele se decepcionasse com as direções erradas que a humanidade tomava, o Amor d'Ele era o que mantinha a porta da varanda sempre aberta, esperando que, um a um, os Seus pequenos decidissem finalmente voltar para casa e escolher o Bem.
A liberdade que muitas vezes usamos para o mal é a mesma que nos permite experimentar a Graça. Sem o livre-arbítrio, o perdão não teria sentido, e a entrega não teria valor.
Muitas vezes reclamamos da maldade do mundo, esquecendo que o mundo é feito de pequenas escolhas individuais. Quando escolhemos a paciência em vez da ira, a verdade em vez da conveniência e o amor em vez da indiferença, estamos validando o risco que PAPAI correu ao nos criar. PAPAI não nos exige perfeição, Ele apenas nos quer por perto, pois estando perto Dele saberemos o que Ele quer de nós.

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