O Peso da Graça: Quando o Outro Não Merece

garota adolescente olhando para frente com semblante de irritação/frustração. Desenho em aquarela


Nick entrou zangada, bufando. PAPAI a olhou curioso. 

— Oi, minha pequena, como foi hoje? — perguntou carinhosamente. 

— Horrível! — Nick falou alto, em um tom seco.

PAPAI a olhou atentamente, esperando ela desabafar o que havia de errado. Nick bufou novamente. 

— Ah, PAPAI! Como pode aquela pessoa ser tão arrogante e autoritária? Ela me disse, há alguns dias, que acreditava no Senhor, que frequentava Sua casa e até servia lá! E hoje se mostra esse tipo de pessoa que eu não suporto! Foi só eu aceitar a proposta que ela se transformou em um monstro terrível! Já estou quase me arrependendo de ajudá-la, ela não merece!

PAPAI, com um semblante de paciência e amor, deu um leve sorriso. 

— Nick, me diga: alguém aqui na terra merece alguma ajuda?

Nick engoliu em seco. Ela não esperava essa pergunta. 

— Graça — continuou PAPAI — significa favor imerecido. 

— Ah, PAPAI, mas isso eu deixo para o Senhor. Eu não consigo dar "graça" para pessoas desse tipo — Nick continuava zangada.

PAPAI sentou-se ao lado dela, o olhar profundo e acolhedor. 

— Entendo sua frustração, Nick. A incoerência alheia dói, principalmente quando nos dispomos a ajudar. Mas a questão nunca foi sobre o que ela merece. Se viver apenas pelo mérito, ninguém estaria aqui agora. Quando você estende a mão apenas para quem é bom, você está apenas negociando gentilezas. Mas quando você ajuda quem parece "não merecer", você está exercitando algo muito maior.

Ele fez uma pausa deliberada. 

— Você está refletindo a essência da Graça. Se fosse merecido, seria salário, seria troca. Mas como é favor imerecido, é um presente. Ao dar o que ela não merece, você se torna livre do comportamento dela.

Nick sentiu o aperto no peito começar a ceder. Ela percebeu que sua raiva vinha da expectativa de que a outra pessoa fosse perfeita.

— Então eu devo simplesmente aceitar o autoritarismo dela? — perguntou, agora com a voz mais baixa.

— Não se trata de aceitar o erro, mas de não deixar que o erro dela mude quem você é — explicou PAPAI.

 — Você pode estabelecer limites com firmeza, mas sem perder a doçura. A Graça não nos faz bobos, ela nos faz nobres. Ajude-a não porque ela é um "monstro" ou um "anjo", mas porque você decidiu ser canal de algo que vai além do que os olhos veem.


Muitas vezes, nossa maior decepção não vem da maldade do mundo, mas da incoerência daqueles que dizem caminhar ao nosso lado. É difícil digerir quando o discurso de "amor e serviço" esbarra em um comportamento arrogante. No entanto, o diálogo entre Nick e PAPAI nos lembra de uma verdade incômoda, porém libertadora: a Graça é, por definição, o que não se merece.

Se fôssemos retribuir apenas o que é justo, estaríamos presos a um ciclo de trocas. Ser bom com quem é bom conosco é o padrão comum. Mas oferecer o favor ao incoerente é o que nos diferencia.

Isso não significa ser conivente com o erro, mas entender que o nosso caráter não é ditado pelo comportamento do outro. Quando decidimos oferecer Graça, protegemos o nosso próprio coração de se tornar amargo. Que possamos ser menos juízes de mérito e mais canais de bondade. Afinal, a luz só faz sentido onde ainda há escuridão.

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