Quando se acomodar parece perigoso

garota adolescente olhando para a tela do notebook - desenho em aquarela digital


Nick estava com a testa franzida encarando a tela do notebook. PAPAI passou pelo quarto e parou para observar a cena. Ela parecia inconformada. PAPAI deu algumas batidas na porta.

– Oi, minha pequena, como está o projeto? – Perguntou com um sorriso tranquilo.

– Ah PAPAI, o projeto está incrível! Eu estou muito animada! Só tem uma coisa que eu não entendo...

– Quer compartilhar comigo?

– Então... as pessoas que estão lá há mais tempo, elas não gostam de nada de lá, eu realmente não entendo por que elas ficam, sabe? Mesmo que fosse pelas recompensas, ainda assim não faria sentido, pois todas elas são direcionadas para usar no projeto.

PAPAI puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela, acomodando-se enquanto olhava para o reflexo da tela nos olhos curiosos de Nick. Ele suspirou suavemente.

– É uma observação muito perspicaz, Nick. Sabe, os seres humanos têm uma tendência curiosa. Muitas vezes, eles se apegam ao conforto do que já conhecem, mesmo quando esse lugar ou situação não lhes traz mais alegria. Eles se acostumam tanto com a rotina que esquecem o motivo pelo qual começaram.

Nick virou a cadeira para encará-lo, abraçando os joelhos.

– Mas, PAPAI, isso parece tão exaustivo! Se o objetivo do projeto é construir algo bom, aprender e aproveitar a jornada, por que transformar tudo em um fardo?

PAPAI tocou levemente na mão dela, com aquela ternura que acalmava qualquer tempestade.

– Porque, com o tempo, é fácil desviar o foco do "porquê" e focar apenas no "o quê". Quando as dificuldades aparecem, muitos começam a olhar apenas para as falhas dos outros, para os defeitos do sistema ou para a lentidão das recompensas. Eles permanecem por inércia, pelo status de serem veteranos, ou pelo simples medo do desconhecido que existe do lado de fora.

Nick franziu o nariz, pensativa.

– E as recompensas? Elas só servem para o próprio projeto. Não faz sentido sofrer por algo que não vai mudar a vida deles fora dali.

– Exatamente. – PAPAI sorriu, orgulhoso da sabedoria que crescia nela. – A verdadeira recompensa nunca esteve nos itens, nas conquistas ou no que eles ganham para gastar dentro do próprio sistema. A verdadeira recompensa é quem eles se tornam durante o processo: a paciência que desenvolvem, a resiliência que constroem, a criatividade que exercitam. Quando o coração se fecha para isso, o projeto vira apenas uma prisão com portas destrancadas.

– Uma prisão com portas destrancadas... – Nick sussurrou, absorvendo a frase. – Então, é como se eles estivessem no lugar certo, mas com o coração no lugar errado?

– Perfeito, minha pequena. – PAPAI concordou com um aceno lento. – E é por isso que você não precisa entender ou absorver a amargura deles. O seu papel é guardar o seu próprio coração. O segredo para não se tornar refém da insatisfação é nunca perder o deslumbramento do primeiro amor pelo que você faz. Seja na frente desse notebook ou na vida lá fora, faça tudo com gratidão e propósito.

Nick respirou fundo e voltou o olhar para a tela brilhante, mas agora a tensão em seus ombros havia sumido. Um sorriso leve e determinado tomou conta do seu rosto.

– Vou focar na minha parte da construção, PAPAI. E, quem sabe, minha alegria não contagie alguém que esqueceu como é se divertir e ter propósito por aqui?

– Essa é a atitude de uma verdadeira luz. – PAPAI deu um beijo carinhoso no topo da cabeça dela e levantou-se devagar. 

Se estamos em um lugar onde não queremos mais estar, temos que mudar a rota e não nos acomodarmos ali virando pessoas amargas e "reclamonas". Ou então repensamos no que nos levou até ali e se ainda faz sentido para nós, se sim, precisamos voltar a alegria do inicio. Nem sempre é fácil, mas é possível, se realmente tivermos essa consciência e quisermos. 

Não se apegue a uma prisão com as portas destrancadas.

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