Quando eu quero salvar quem escolheu afundar

uma mão estendida em sinal de ajuda - desenho em aquarela digital


Nick entrou na cozinha bufando e com a testa enrugada de raiva... PAPAI olhou de rabo de olho.

— Minha pequena, o que aconteceu?

— Ah PAPAI, eu me irrito quando acontecem algumas coisas!

— Eu entendo... só não pode deixar essa raiva ficar aí dentro te consumindo. Vamos lá, bote pra fora — PAPAI encheu um copo de água e colocou à frente da menina.

— Ah PAPAI, parece que as pessoas não veem as coisas como eu vejo ou, sei lá... Hoje a Renata veio me contar de um garoto que claramente não gosta dela, mas ela acha que ele a ama. E o pior é que ele sabe manipulá-la direitinho e, por mais que eu fale que tem coisa errada, ela só dá de ombros e fala que não se importa, desde que ele aja como ela quer... Eu vejo essa situação e me dá náuseas! Como as pessoas vivem assim?

PAPAI suspirou, apoiando os braços no balcão. Ele a observou com aquela paciência de quem já viu muito do mundo e de suas contradições.

— As pessoas vivem assim, Nick, porque, para muitas delas, a ilusão é um lugar muito mais quentinho do que a realidade.

Nick franziu o cenho, rodando o copo de água entre as mãos.

— Mas é mentira! Tudo ali é falso, PAPAI. Ele finge que se importa para ter o que quer, e ela finge que ele a ama para não se sentir sozinha. É um teatro.

— Exatamente. Um teatro onde os dois concordaram em atuar, mesmo que de forma silenciosa — Ele explicou, com a voz suave. — A Renata, no fundo, talvez saiba da verdade. Mas admitir isso exigiria que ela tomasse uma atitude, que ela enfrentasse a dor da rejeição e o medo da solidão. Tem gente que prefere segurar uma migalha envenenada a ficar com as mãos vazias.

A raiva de Nick começou a dar lugar a uma tristeza silenciosa. Ela não estava apenas irritada com a amiga; estava frustrada por não conseguir salvá-la de si mesma.

— E o que eu faço? Fico assistindo ela se machucar?

— Você faz o que uma boa amiga faz: oferece a verdade com gentileza, e guarda o seu ombro para quando o teatro desmoronar. Porque, uma hora, as cortinas fecham. Ninguém consegue sustentar um personagem para sempre. Mas até lá, você precisa entender que não pode abrir os olhos de quem escolheu, voluntariamente, mantê-los fechados.

Nick tomou um gole longo da água, sentindo o líquido gelado acalmar o nó em sua garganta. Ela olhou para a janela, vendo a tarde cair, e percebeu que a náusea havia passado. Não era sua missão consertar o mundo ou controlar as escolhas de Renata. Sua única obrigação era manter os próprios olhos bem abertos, para nunca aceitar entrar em um palco onde o amor não fosse real.

Quantas vezes temos "Renatas" por perto e queremos a todo custo salva-las? Tirar alguém da própria ilusão é realmente muito difícil, o que podemos fazer é apenas entregar nas mãos de PAPAI e pedi para que Ele tenha misericórdia daquela pessoa, e quando o teatro finalmente acabar, que possamos estar por perto para ajuda-la a seguir em frente. Não conseguimos salvar alguém que não quer ser salvo, o primeiro passo sempre deverá partir da pessoa. Lembre-se disso para não se frustrar.

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