— PAPAI? Cadê você?
Nick não sabia onde PAPAI estava e nem tinha ouvido nenhum barulho na casa. "Será que Ele saiu? Mas Ele sempre deixa um recadinho pra mim...", pensou, enquanto caminhava pela sala silenciosa.
— Aqui no sótão, minha pequena! — Nick ouviu a voz distante e acolhedora. Mais que depressa, ela foi correndo até Ele.
O sótão ficava no final do corredor, quase no último cômodo da casa. Era muito difícil ela ou PAPAI entrarem lá; o espaço era bem apertado, escuro e desconfortável, servindo apenas para guardar coisa velha. Nick parou na parte de baixo da escada e, curiosa, olhou para cima:
— O que o Senhor está fazendo aí?
— Resolvi fazer uma limpeza e mandar algumas coisas embora. Quer me ajudar?
— Tudo bem... — Nick deu de ombros. Já estava ali mesmo, embora a ideia de mexer com poeira e caixas antigas não lhe agradasse muito.
Lá de cima, PAPAI foi passando algumas caixas para a menina. Uma a uma, ela as empilhou no corredor. Quando terminou, Ele desceu as escadas limpando as mãos, respirou fundo e abriu um sorriso satisfeito.
— Maravilha! Agora vamos jogar tudo isso aqui fora.
Nick olhou meio por cima para as caixas abertas e começou a perceber que havia várias coisas dela ali. Eram objetos que ela nem se lembrava mais que existiam, mas que, no mesmo instante em que foram vistos, geraram um aperto estranho e uma ansiedade repentina em seu peito.
— PAPAI, eu não quero jogar essas coisas fora.
— Mas você não mexe nisso há anos, minha pequena. Qual é o problema?
— Eu não sei explicar... — Nick abaixou o olhar, mexendo na aba de uma das caixas de papelão. — São coisas minhas. Fazem parte da minha história. E se um dia eu precisar de alguma delas de novo?
PAPAI se aproximou com calma, sentou-se no degrau da escada e fez um gesto para que ela se sentasse ao Seu lado. Com delicadeza, Ele puxou a caixa que estava mais próxima e tirou de lá um brinquedo antigo, com uma peça quebrada, e um caderno com páginas amareladas.
— Olhe bem para isso, Nick. Quando foi a última vez que esse brinquedo te trouxe alegria? E esse caderno cheio de anotações de dias difíceis... por que você ainda guarda?
Nick ficou em silêncio por alguns segundos. Ao tocar naqueles objetos, percebeu que eles não traziam boas lembranças. Pelo contrário: traziam a sensação de fases confusas, de promessas que não deram certo e de dias em que ela se sentiu sozinha antes de aprender a confiar plenamente n'Ele.
— Eu nem lembrava que isso ainda estava lá em cima — confessou ela, com a voz baixa. — Acho que só fui empurrando tudo para o fundo do sótão para não ter que lidar com a dor de me despedir.
— É exatamente por isso que você sentiu ansiedade quando viu essas caixas — explicou PAPAI, passando o braço ao redor dos ombros dela. — Você achou que, por estarem escondidas no escuro, essas coisas não ocupavam espaço. Mas uma casa com o sótão sobrecarregado fica pesada, minha filha. O ar não circula direito, e o peso do que já passou impede você de aproveitar o que estamos vivendo hoje.
— Mas desapegar dá medo, PAPAI. Parece que estou perdendo uma parte de mim.
— Você não é o que acumulou nos dias difíceis, minha pequena. — Ele sorriu com ternura, erguendo o queixo dela para que olhasse em Seus olhos. — Sua história comigo não depende de caixas empoeiradas. Quando guardamos o que já perdeu o sentido, não deixamos espaço para o novo. Eu tenho presentes lindos e novos tempos preparados para você, mas preciso que você confie em Mim para soltar o que já cumpriu o seu tempo.
Nick respirou fundo. Pela primeira vez, percebeu que o medo de perder aquelas coisas velhas era apenas o costume de conviver com elas. Olhou para as caixas, depois para as mãos seguras de PAPAI, e sentiu a ansiedade dar lugar a uma calma silenciosa.
— Tudo bem, PAPAI. Vamos levar tudo lá para fora.
Juntos, eles carregaram caixa por caixa até a calçada. A cada viagem, Nick sentia os ombros mais leves, como se estivesse esvaziando não apenas um cômodo esquecido da casa, mas um canto apertado da própria alma. Quando voltaram para dentro e fecharam a porta, a casa inteira parecia mais iluminada e fresca.
Quantas vezes nós também não agimos exatamente como a Nick? Vamos empurrando para o "sótão" do nosso coração mágoas antigas, culpas que já foram perdoadas, medos, expectativas frustradas e lembranças de estações que já se encerraram. Como ficam lá no fundo, onde quase nunca entramos, acreditamos que está tudo bem.
O problema é que, quando Deus decide fazer uma faxina em nosso interior e traz essas caixas à tona para que possamos finalmente jogá-las fora, nossa primeira reação costuma ser a ansiedade. Nós nos apegamos ao que é familiar, mesmo quando o que é familiar já não nos faz bem ou não cabe mais em quem nos tornamos.
Deixar ir exige coragem, mas acima de tudo exige confiança no Pai. Ele nunca pede para esvaziarmos um espaço apenas para nos deixar de mãos vazias; Ele limpa o nosso interior para que possamos respirar aliviados e viver o novo que Ele mesmo preparou.

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